Sempre que um projeto é bem-sucedido, surge o desejo de copiá-lo ou expandi-lo. Mas a tentativa pode ser frustrada caso não se descubra exatamente qual é a essência do projeto, aquilo que fato permite que ele funcione bem e dê resultados.

Descobrir quais são os processos-chave e descrever, de forma clara, qual é a melhor forma de realizá-los é um trabalho essencial para reproduzir algo que deu certo – seja um modelo de negócio ou um programa social. A Fundação Iochpe utilizou processos e conceitos do sistema de franquias para levar seu projeto social a outras empresas e, assim, criou uma das primeiras franquias sociais do país: o Formare.

Em 1989, a Iochpe Maxion, uma das maiores fabricantes de autopeças do país, criou um projeto social em duas de suas fábricas. Os voluntários eram os próprios colaboradores da empresa. Sua missão era ensinar um pouco do que sabiam para os jovens de baixa renda que moravam na região e, assim, dar a eles uma chance de ingressar no mercado de trabalho.

Desde o início, pretendia-se dar uma formação abrangente a esses jovens. Orientá-los a trabalhar em equipe e transmitir noções de qualidade, ética, cidadania e disciplina eram questões tão importantes quanto ensinar técnicas para produção de autopeças. “A escolha por formar o cidadão em vez de se preocupar apenas em capacitá-lo profissionalmente foi, desde o início, a razão do sucesso do projeto”, diz Beth Callia, que hoje ocupa o cargo de coordenadora-geral do Formare.

Os resultados, logo cedo, superaram as expectativas. Além de beneficiar os jovens de baixa renda, que em sua imensa maioria conseguiram um emprego ao concluir o curso, o projeto também elevou a autoestima dos colaboradores da fábrica.

Os voluntários sentiram que suas competências eram valorizadas pela empresa e ficaram gratificados em dar às pessoas da comunidade uma chance de melhorar de vida. Além disso, ao ensinar os alunos, eles renovavam seus próprios conhecimentos e aprimoravam seu desempenho profissional. Todo mundo saía ganhando.

Não demorou muito para que os diretores de outras empresas, em sua maioria do segmento automotivo, conhecessem o projeto e se interessassem em reproduzi-lo em suas fábricas. Em 2000, o projeto social já havia sido implantado em cinco fábricas do Grupo Iochpe e em outras duas empresas que se encantaram com o projeto.

Mas como garantir que a metodologia de ensino, que funcionava tão bem no Grupo Iochpe, fosse replicada com sucesso em outras empresas? Que técnicas poderiam ser usadas para assegurar a reprodução dos mesmos processos e sistemas usados naquele programa social, mantendo o padrão de qualidade da Fundação Iochpe?

A resposta estava nas técnicas e conceitos do Franchising. Ter processos definidos e documentados, usados para capacitar e orientar os colaboradores sobre como proceder para garantir um padrão de qualidade em todas as unidades, são princípios básicos do dia-a-dia de uma rede franqueadora. E podem ajudar diversas organizações a extrair melhores resultados de sua equipe e de seus recursos financeiros – mesmo que se trate de uma organização sem fins lucrativos.

Foi por pensar assim que, em 2000, a Fundação Iochpe contratou o Grupo Cherto para formatar uma das primeiras franquias sociais do Brasil: o Projeto Formare. A estruturação da franquia Formare seguiu o procedimento padrão adotado pela maioria das franqueadoras: os processos-chave foram mapeados e documentados em manuais, foram listados os requisitos que a empresa teria de cumprir para fazer parte do projeto social, qual seria o perfil do parceiro Formare e a capacitação dada à sua equipe e ainda as regiões prioritárias para expansão da rede.

“Além de não termos fins lucrativos, a principal diferença da nossa franquia social para as demais é que customizamos os manuais de capacitação de acordo com a necessidade e a área de atuação da empresa que ingressa na rede Formare”, diz Beth.

Em 2001, teve início o processo de expansão da rede. De lá para cá, cerca de 14.000 alunos já frequentaram as aulas dadas por cerca de 5.000 voluntários em 100 unidades Formare. Cerca de 80% dos jovens formados conseguem um emprego, sendo que 40% a 50% deles acabam trabalhando na própria empresa onde o curso foi ministrado.

“Um projeto bem estruturado e bem gerido tende ao sucesso, principalmente quando ele é baseado numa relação onde todos ganham”, diz Beth Callia. “E foram as técnicas do franchising que nos ajudaram a estruturar e gerir o projeto Formare.”

Nome: Fundação Iochpe

Objetivo do projeto: criar processos claros que permitissem replicar o projeto social da Fundação Iochpe em outras empresas

Resultado: Foi criado o Formare, uma das primeiras franquias sociais do país, que em 12 anos atendeu mais de 14.000 jovens de baixa renda

Autor Marcelo Cherto

É presidente e fundador do Grupo Cherto (Cherto Consultoria, Franchise Store e Cherto Atco). Mestre em Direito pela New York University, é um dos fundadores da Associação Brasileira de Franchising (ABF), além de membro da Academia Brasileira de Marketing e do Global Advisory Board da Endeavor. Já escreveu 13 livros sobre Franchising e vendas.

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